domingo, 25 de dezembro de 2011

Enjambrado














                                          pic. Dani Ribeiro


Dedico a musica Pinóia
composta de alfinetes oxidados
e de drogas sonolentas
ao primeiro choro artificial da semana

Entre
macacos devorando livros
e tumores roubando vidas
o choro “é moda em 73”

Sonho
com uma vanguarda de estiletes 
para aterrorizar
viciados em girassóis,
caleidoscópios com glaucoma
e vinis reacionário

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Paixão num sanatório














                                       pic. Lucas FL.

Pelas manhãs
Arrastamos nossas pernas quebradas pelos corredores vazios
sentamos no chão do banheiro
e com os dedos magros e trêmulos
escrevemos no papel higiênico
a canção plasmática dos ventiladores
. . .
Nas tardes ensolaradas
bebemos o amargo da tintura turquesa
e ingerimos dipirona-plástica para contemplar -
as sondas torácicas drenando o pus da metade morta
. . .
Ao escurecer
procuramos abrigo na biblioteca
e com a luz apagada
usamos os livros alemães como vibradores
No ápice dessa conquista disrítmica
cria-se o beijo com o batom cor vertigem
e esquecemos dos nossos nomes
fissurados unicamente no flerte psíquico

domingo, 13 de novembro de 2011

Aro empenado


Antes de mais nada
passe uma flanela na óptica
_água do olho
amolece a lente...

Depois
volte
focalize
e filme até estourar as fibras da paisagem

Com um espeto enferrujado
ponta de grafite
costure em retalhos
um punhado de placas do DETRAN num plano A4
Acrescente algum passeio estreito do meio-dia
espalhe alguns fatos
e um cacto

Pedaços do tipo fumaça,
indiferença,
ruídos,
e sombras escaldantes
fica por conta da câmera analógica
ou digital

Quanto a ação do cenário
um atropelamento por dia,
duas colisões por hora,
um cidadão por segundo
ou uma duzia deles...

"dê preferencia para os idosos mais varridos"

Nada de lobos
estepes
ou gatas

Cigarro,
só se for canos de descarga baforando
e bebida,
aquela movida a gasolina

E na cena mais emocionante
não pestaneje
desligue a câmera
e vá embora

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Capital de estiletes


A namoradinha oxigenada do sargento
procura um psicólogo
O homem está a beira
a arma debaixo do travesseiro
cervejas entupindo a geladeira

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pré-fabricado



















pic. Lucas FL


Os figurões vão chegando
sorriso aqui
trejeitos lá
tapinhas nas costas

"fumes"

Com defeito
gasolina no copo
filmes

Digo...


aparece

num portal
calado

Não perde a esperança
sempre quebra tudo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Engolindo

Ela procurou cartomante
cosméticos
candomblé
evangélicos
Casou com um eletricista
traiu
abortou
encheu a cara
tentou se matar
apanhou
separou
. . .
Ontem ela esperava o ônibus
fumava indiferente.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mosaico de miúdos

Dentes de carranca
. . .
Ogum 
Prometeu
. . . 
Pescoço de bode

galinha retorcida
. . .
Tremedeira 
cachimbo de cedro
junta puída

21mg

Um galão de vinte litros de água
estourando na escada de um prédio

enxurrada

entregador kamikaze

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Expurgo


Aqui não é lugar para vertigem
ou para embrulhar o estômago

Temos mascaras de papelão
peruca de cobre
gasolina
e o escrivão

Aceitam estagiários
loiras
ou garotões
E se aparecer um daqueles atípicos
“fuzilamento”

Batizo:
“Pasárgada-metalúrgica”
contínua
cercada de vendedores
amplificadores
olheiras
e rivotril

Aqui ou lá...
não existe ponte
só corda bamba

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Postinho

Essa noite foi Johnny-trivial
desconheci uns caras
e o velho rock'n'roll
Jogaram cerveja na nossa mesa
chamaram para porrada
até me deram um tapa

Na verdade...
eu só queria encher o saco
o dodecafonismo
é a nova "piração"
um papo de nerd...
porém dissimulador do autismo rock'n'roll

Perderam o controle
correram atrás do carro
bufaram
rosnaram

nós...
estávamos sorridentes
eufóricos
destruídos

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Lepra


Aquela casa velha
de respiração chiada
cheira alzheimer

Quanto mais à olho
minha sinusite lateja
a boca solfeja
“filarmônica-débil”


eu corro com o peito magro
vacilando na calçada
em pura nóia

Paro na esquina
e tento perceber
que já estou farto do Barroco

Ofegante
sento de frete para igreja
e vem aquele louco
argentino
vendendo seus chinelos...

Se vou abrir aquela porta
é pura invenção
Em Del Rei
pouco me vale uma rua

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Óleo Diesel


Subindo um morro
duas universitárias envernizadas
corriam para engrossar as coxas
exibiam
“o opressivo”



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Feijoada concreta


Juju Belê
funcionária dos serviços gerais
“negra-geniosa”

Jura de pés juntos
que quando for demitida
vai furar os quatros pneus do carro
da patroa

É da Umbanda
tem Pomba gira
e Zé Pelintra

Aos 17 anos
sofreu igual condenada
no parto normal

Hoje
desiludida do amor
bebe dezenas de cervejas aos domingos

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ócio


















Improdutividades...
Hora vazia na sala de escritório
E a presença incômoda
Ignorada

Mas o sujeito-epilepsia
do folhear insinuante
cavando freneticamente
o livro ilegível,
ensaia labuta
pra gastar seu parco dinheiro
na locadora de vídeos
sessão pornô.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Pichador


No muro
a alta-tensão visual

Barba para pouco rosto
muito cabelo para uma cabeça

_ Parem esse vândalo!

Ele corre
entre carros e parasitas
transpira feito louco
cruza semáforos
entorta retrovisores

Sob buzinas
e freadas
o nosso Super-herói é orquestrado


_Alguém segura esse marginal!

E num forte arremesso
ele se desfaz do spray
e some na primeira quebrada.



domingo, 18 de setembro de 2011

Transa


Fico com essas ruas vazias
esbarrando em retrovisores
resmungando baixo
numa solidão performática
na pretensa procura

(...)

Passos em progressão
e os gemidos vão tomando forma
num tenso ranger de vidro
pau
e coxas

(…)

Sem mando
e esquecido
olho para trás
e aquelas patas e rodas
levam embora a Menina-do-olho

(…)

No supermercado
percebo que tudo na consciência
não passa
não para
vaza

sábado, 3 de setembro de 2011

Quadrinhos da Meia-noite


Gritou:
_Carro!

_Levante rapaz
foi apenas um susto!...

Os dois amigos depois do acidente
foram ao açougue
um tinha a grana
e o outro
penas

sabem andar de bicicleta
na contramão

Caminho do açougue
um tijolo na mão
potência
e a vitrine de celular

Retângulo arremessado
ovo quebrado
senhor rachado
gema vermelha

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Tarces


Silhueta veneno
recém esculturada
pura coca
que vacila
no jeans

Depois daquele parto
seu corpo mutante
aflorou-se sem seu aval

Agora se vira
desvira
e vira-se
pois os lances são altos
e você acabará cedendo

Se cuida!
Gaviões te espreitam 
e te querem
despedaçada

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Coluna Social II



XI
A velha escura
amanhece na janela
Sonhou com pés de mamonas

XII
“Leilão de vacas leiteiras”
De coração frustado
a classe média infla as tetas
c/ silicone

XIII
Senhoras rezando o terço

“Porta aberta”

Perseguido por vira-latas
um porco aos berros
invade a sala do casarão

XIV
O para-choque do ônibus
Rotatória
Carros em chamas

Lucas FL.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Coluna social


I
“O peixe morre pela boca”
Sílvia alucinógena
morre na bocada

II
Conversas fiadas
descasos
travestis na ponte

III
Sofia macabra
a rasgadora de galinha
...entidades...

VI
Comer toucinho
mijar pelo cú
poesia de burgues

V
Jazz
é a tua mãe
de quatro

VI
O carro estacionado
No retrovisor
o pardal surta

VII
Feridas na pele
insulina na coxa
Te ligo depois

VIII
Na faixa de pedestre
duas estudantes
mascam bubbaloo's

IX
Em Delfim Moreira
o sino badala
hipocondria

X
Neo-Entregadores de gás
explodem
a Rua Francisco Sales 

Lucas FL. 

domingo, 7 de agosto de 2011

Prudente Morais

Calado
vida descarrilhada
olhos de longa-metragem

Maquinista fumante
Trilhos abandonados
A ferrovia turva

Sucata e
mato
Carvão e
pedra

Depois do pontilhão
vultos dormindo em janelas
o ranger do ferro
dormentes e ombros

e a grosa

"APITO"

Lá vem a locomotiva enferrujada
de vagões apodrecidos
e sua velha estação

A turma-de-linhas

mal-ditos

fantasmas

terça-feira, 19 de julho de 2011

Bairro



O “galo” berrou mais cedo
(gritaria da uma estudante)
A rua Francisco de Paula abriram suas janelas
e do jardim ao lado
ecoavam latidos dementes da cachorrada

Atacado por um hottweiler
um cavalo ensanguentado
oscilava o pescoço feito pêndulo

“bicho consternado”

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Dolores do suburgo

Criado em enfadonhas filas
escorrido de caixas eletrônicos 
bebido em lanchonetes lotadas

Apresento-lhes!
"Poema magnético"

Filho da cidadezinha afoita
habitada de pensamentos mínimos
palavras1,99$
liquidações humanas

Lá... 
fértil como capim gordura
"Atendentes-de-loja" proliferam por todo canto
eternas tesudinhas 
fadadas ao uso enfiado de calças oxford

No quinto dia útil
as mulheres dos assalariados
urinam laranjada
esbanjam seus desmedidos culotes  
E o clitóris...
ah o clitóris!...
é uma coxinhas com catupiri 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

De junho


Uma conversa
e o jornal forrando o banco
coisas leves
respingadas a molho

Você
e seus cachorros soltos

Ele
Pela falta de barba
ou idade
se desconhece

Se aqueles meninos parassem de correr
escutaríamos mais o uivo do cão emancipado nas ruas

Não pegaria sua comida
apenas seguraria seu pulso
e quanto custaria seus batimentos cardíacos?

É a estação dos ruídos afinados
riscando a pintura do carro
fora do ângulo
tempo de transfigurações

Onde o erótico
não passa de palavras feitas de gesso
enroladas num cachecol velho
retorcendo os fatos

A-gosto do freguês


A-gosto?

se ao gosto
de hipertensos: sal
e diabéticos: açúcar

Se des gosto
ao menos
al dente
ardente
a carne
o ál-cool

Se a-gosto
tempero
há gosto
sabor
há gozo
mastigue.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Oswald de Andrade

Retrato de Oswald de Andrade, 1922
Tarsila do Amaral ( Brasil 1886-1973)

Wassily Kandinsky


União de Cartório


A manequim
de vestido A4

Ela finge não saber...
Ele,
mal-falado

Os pardais 
pombos
e alguns gatos pingados
assistem
se cutucam
e pedem mais sal

Ponta-pés da juventude
antecipando ângulos
frutos
missa
seios

Nessa cerimônia
compareceram
apenas a vanguarda Neo-Dada
ou Gaga?

Um casamento
tão macabro
quanto Poe

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ecos

Minha escrita é qualquer coisa
menos poesia
é a pura conversa fiada
não tem verdades
nem medidas
o típico papo furado
feita para descarte imediato

Sua composição
é pura maravalha
restos de um marceneiro cansado
velho, quase surdo
Que toca a vida
com seu rádio empoeirado
cheio de gambiarras
fios desencapados
de precária sintonia

É sintomaticamente feia
retirada de corpos doentes
semelhante a
apendicites
hérnias
vesículas
verrugas
e pequenos cânceres benignos

Não embala amantes
não incita a juventude
não provoca o estado
não inspira

Até poderia comercializá-la
como veneno para ratos
ou como soda para desentupir pias

Meus versos
valsam com o mal gosto.

sábado, 4 de junho de 2011

Extorsão

Talvez já tarde
ele possa acordar
se vestir mal
e não pensar em coisa alguma

Não compraras
Não roubaras
Não mataras
apenas abaixará o vidro do carro
e a profecia se cumprirá

“Um dia todos os homens mal-tratados
poderão cortar o próprio bucho sem sentir dor
Amém à procissão dos vigaristas
à luta
à engorda de porcos
à fragmentação”

Bebo sua irmã


Que fique bem claro. O final é seu.

Será uma convencão de forças?

Mais fraco eu, mais fraca a minha determinação, poderia acabar com o bom? É o bom? Intento acabar com o bom?


Bona, muito bona todo o artifício do meu pequeno ego, surgindo paralelo a todos, todas pequenas questões práticas. Práticas belas, não imundas pequeno falastrão, pequeno do gozo em tê-lo em pegar uma pequena parte mais, da minha longe prática. Me ajude. Posso contar?  Até meu gozo tremer de cansar, sua grande face me deitar mais belos cachos onde intento alcançar? Bela, muito bela fisionomia, muito bela pederastia nunca alcançar? Reitero, todo o diálogo. Sua Sua bela foi paranás muito pouco Isabela.


Pouco dá... 


Não os sonhos, mas as palavras. Talvez o livro. Todo encapado. Vai, belas as grandes páginas empoeiradas e chamuascando no sebo? Não, isso era gostoso. Muito gostoso. Dos masi belos gostos que sentia visitando uma cidade moribunda. Mesmo as mulheres me deixaram com o certo pesar. De cidade. De cidade porca. Muito verde, admito. Muito mais verde do que todos os terrenos largos e caminháveis da minha região. Embora minha região não se pareça com esse campos ela é muito bela. Daquelas onde se pode ver a cidade limítrofe subindo em algum penhasco - onde eles não existem. E no conto rpé, veio uma bela ideia.

Amo sua irmã.
Que?!
Amo sua irmã.
Esse cara bebeu demais.
Pois é, amo sua irmã, tenho tesão por ela.
Hm...
Sua.

E parece uma bela piedade, seu desejo em me mostrar como é fraco o beijo. Chamusca demais. 

Bebo desprezo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Bar Verde

O pedreiro Vargas
mais conhecido como Ceará
não poupa sua grana nos fins de tarde
come e bébe sem cerimônias

Trocado suado no bolso
por vezes amassado
mas um luxo

Unha roxa
banha frita no aquecedor
seresteiro passado
a prosa diluída
entoada encharcada

Os artistas são o tal violão empenado
e o negro segurando um copo na gambiarra,
ele caiu da bicicleta semana passada
e quebrou os dois braços

sábado, 7 de maio de 2011

Vinciana Inflamada


Duas pregas móveis
dotadas de grandes cílios

suas pálpebras

expressão mista
de indiferença e deboche...


Morena afoita
de mãos cadavéricas
taciturna

(...)
Em noites dantescas
grandes filas para o banheiro
meninas no pretérito
baforadas
olhares esfarelados
provincianos
e aquele peso nas entranhas

(…)
No fim da sessão
taquicardias em motéis baratos
discorrendo em compulsivos tragos
o coma sentimental

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Poema XIV - Roberto Piva



"vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
 adolescência. vou queimar teus
   olhos com ferro em brasa.
   vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor."

(20 Poemas com Brócoli, 1981)

Surrealismo de Max Ernst


Max Ernst (2 de abril de 1891, Brühl, Alemanha — 1 de abril de 1976, Paris).





sexta-feira, 15 de abril de 2011

Taquicardia


É tarde para releituras
puro langue
enquadramentos escorregadios

Uma divagação inútil
sobre a aridez da boca
olheiras
dissimulações

Tudo sobre Bebel
seu preço em tostões
sua volúpia opressiva
o meu delírio 

sábado, 2 de abril de 2011

Mulheres de César

Engano dos sentidos
Fato deformado

Pensando na vida
roendo as unhas
olhando as pontas duplas
ela urinando

estado bruto

O certo
e fixado de antemão:
Mulher
é a própria negação de si

No fim da cena
ao sair do toalete
encontra-se
entre um dente e outro
o esmalte das unhas
aparência
acidez
e ilusão

terça-feira, 29 de março de 2011

Obra Prima


Paranóia

I

Sua Profissão não presta mais
quinze anos de enfermagem
tomando café com amputações
almoçando com a classe média inflando os seios 
e no jantar, provincianos apodrecendo 
escaras diabetes gangrenas recém-nascidos  

Passa a maioria das noites fumando
e escrevendo artigos
"A Saúde Pública e as suas Mazelas"

Tem um lote de lâminas de bisturi vencidas de 1975
consome depressores
sonega impostos
maltrata prostitutas
  ____________________________________________

II

Relâmpagos trincam o céu
O velho cavalo no lote baldio 
_é isso...
Ele veste sua jaqueta jeans surrada
calça sua bota
e sai à procura da pior bocada da cidade

Abafada garoa
mãos nos bolsos
vapor homicida esvaindo pelas narinas
ruas de pedras

Na calada da madrugada 
debaixo de um pontilhão
um negro cruza o seu caminho
_____________________________________________

III

_Ei, você... não vai dizer "nada"?... _Disse Vlado.
_Tá maluco meu irmão, tu sabe com quem tá falando?! _O negro o encara.
_Não. 
_Não como viados! _O negro cospe com enojado.
_Certo. 
_Ei, antes que eu esqueça...
_Que isso meu irmão!... abaixa essa parada aí! 
_Não precisa me agradecer!...
Dois disparos cravados no tórax
_Aaahh!
_Infeliz...
O enfermeiro de UTI acende outro cigarro e pega o caminho de casa.


Lucas FL.




quinta-feira, 10 de março de 2011

Isqueiro

Você e sua voz arranhada...


perdeu o juízo?
ou acabou...


Quem te viu...


Apenas delírios obscenos...


Queimamos a nossa grana
ateamos fogo em nossas coisas


Deve ter um livro em brasa
ou um cão carbonizado 

domingo, 6 de março de 2011

O sapo-escorpião


Rápida soneca após o almoço (nem tão rápida assim: 1 hora e meia). Sonhei com o sapo-escorpião, um sapo de dimensões normais que tinha no lugar da língua um ferrão de escorpião.


Como se não bastasse, ele possuía nas costas um pequeno compartimento que trazia escondido um sapinho-escorpião, com o mesmo ferrão de escorpião no lugar da língua, mas com um veneno ainda mais letal. Em casos emergenciais, o sapinho saía e atacava também. Depois retornava para sua cavidade nas costas de seu "irmão".


Eu só tinha uma vassoura para matar o sapo-escorpião, que perambulava pelo meu quintal, e sentia claramente que não era o instrumento adequado para enfrentar o bicho peçonhento.


Essa sensação de insegurança e medo dominou o sonho.


(este sonho pode ter tido sua origem num evento banal de outro dia, quando ateei fogo numa minúscula taturana).


Chantal.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Histerismo


_Olha só você... Toda ensopada de leite!...
Virgínia constrange-se, não para de olhar para o chão, tenta justificar-se:
_É falta do que fazer...
_mas falei para você não tirar férias de trinta dias...
_duas semanas sem sair de casa... você não está legal!...
_Fui demitida...
_ O que?!...
_Menti quando disse-lhe que havia tirado férias...

Armazém


Uma menininha 
cabelo fino e fina
Um menino banguela dos da frente

O dinheiro curto

O pai 
um metalúrgico típico no fim de semana
vinagre, quatro cebolas
e dois pirulitos de dez centavos 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Declínio


A Odalisca - Matisse

As mãos suadas esfregavam-se na calça jeans. Ela não gostava de sentir suas mãos úmidas. Ao alisar os cabelos, fios e fios caiam pelo chão devido à oleosidade. Recolhia-os e partia ao meio como um gesto de alívio. A fragilidade dos fios causava-lhe um certo consolo. Sua beleza a cansara tanto que fizera com que ela procurasse, a todo instante, um pequeno descuido destrutivo.
Desejava ardentemente o aparecimento de espinhas em seu rosto só para ter o prazer de espremê-las e ver sair o pus branco. Ela dizia que a sensação era semelhante à de um orgasmo, e o pus, ao de uma porra bem gozada. Seu empenho por comprimir aquelas tão bem-vindas espinhas valia mais do que um belo e harmonioso rosto marcado.
Mordiscava suas unhas e deixara de pintá-las. As vezes, alguma sujeira acumulava, e ela limpava-as com os dentes.
Não tinha os mesmos cuidados com os dentes que, outrora alvos, agora já apresentavam alguns sinais de amarelamento. Parara de passar fio-dental e frequentemente dormia sem escová-los. Só fazia isso quando não suportava mais o seu hálito.
Mas durante algumas ligeiras noites... transformava-se numa mulherzinha quase perfeita e formosa. Saía pela rua, e o pus noturno se transformava em um sêmen jorrado em sua entranhas.