terça-feira, 15 de agosto de 2017

Empreita

I

no dia 15/08/2170
uma série de paredes encalhou em Montserrat
_foi o maior naufrágio da vertical!
dizia Seu Pinto segurando algumas lixas nas margens
_senão a maior catástrofe da história marítima! parecia miragem, pintores de parede de todo o mundo vieram pra cá, morreram muitos tentando atravessar, os que conseguiram chegar até lá, lixaram até acabar com o papel da lixa, depois lixaram com as palmas das mãos, lixaram com o resto do antebraço e assim foi indo, até não sobrar nada deles...

Franz Kline

II

a cal virgem que neva
o mais gelo
o mais água
desliza pincel
desempena
os rolos escorrendo
os movimentos de pintura
braçadas e braçadas
e continua um ovo
o arquiteto avalia,
o proprietário rói
ressoam os tambores
e eis a medida
_ simples, vamos usar a cor branco-ejaculação para dar mais vida na casa!

Franz Kline
III

apenas quatro paredes é o necessário p/
fechar homens num salar
eles s   el es le s
sele
lese
agora microbactérias
agora evoluídos
adaptados
de boca fechadas
de olhos esbugalhados
de cu de ferro

Frans Kline



IV

inúmeros carrinhos de mão sobrepostos no horizonte
os árabes sob a luz da gema marretando uma ponte
recebendo tapetes de grama em troca
...
da piscina imunda de rubis ao norte
o médico-suspeito a confirmar se o seu nome é aço



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

9 graus

creio numa parte da velhice
no seu despertar cedo
e rezo baixo pela posteridade
assim quero acordar
às 5
estar de pé
respirando
enquanto os moradores ainda entulhados
sonham

olha lá!
um Matusalém
com as suas lãs camuflantes
cores de pombos
cores de feira
cores da torre da igreja
trajando uma cidade invisível

tal corpo
uma metade meditando
outra passeando a 2, a sós
indo pra missa, pra padaria,
as voltas as voltas as voltas na praça
contornando a si próprio
uma translação estranha
nas proximidades asperas
do sossego

olha ele
comentando o cafézinho
um culto a alma persistente
a mão direita trêmula
onde o signo agora descansa
na sua frase de efeito:
poucos homens conhecem o "arrebol"
aquele andarilho rarefeito

Maurice Utrillo

domingo, 9 de julho de 2017

Metonímia

aguarde
vou levar a  gaiola para tomar sol, pois breve será o dia
ao   pescoço  caberá  apenas  achar
o           equilíbrio             da         cabeça
 e meditar que a nata  do  leite boia
...volto as 17hs
(bilhete de uma diária)


pela manhã
ainda articulada
toda sombreada em folhas
seus intervalos com e sem

no volver do retrovisor
avisto sua silhueta quadrada titubeando
um calafrio
e o distanciar comum das coisas

acabou desabando na marquise
seu estrondo na calçada
uma  revoada  de  pombos desprendeu do chão

reaproveitada por um feirante
virou
um              caixote de feira
de peso nos braços       suor
cheirando  peixaria frutas da época
hortaliças        aves exóticas
tilápias     no       fundo gelo

vou em sua direção e levo o reencontro
um passeio respeitoso
seu estanque de 45 graus
seu novo amigo de estimação no ombro
um ouriço, conheceu na feira

ela ventilada
troca de pele
                              estampa camisas
     
    aerocubo
de fina limagem

Picasso

domingo, 4 de junho de 2017

Gineceu

dos feixes
os furos na tenda
um polvo, aéreo
invadindo
que morre logo ao adentrar
seca como um vampiro
murcha
emanando gazes
os tentáculos se recolhem
tornando-se um repolho roxo
que desabrocha
uma mancha que reluz,
sobre o estilete
um falso estigma

Max Ernst



sábado, 29 de abril de 2017

Franzido

toda licença a
o a
morsa
caíra do espaço
cravando em nossa memória como um degrau
(marco na espécie)

o que vem antes
é ponta
e coça
entorta feito haste
esguicha e morre

Sr. Compilador,
sabe de outra verdade?
_ É a Grande Prensa
em alguma hora 
ela vai cair
num aperto de mãos

agora, se ficares num entrave
experimente a Perplexidade
1 indício:
gosto de banana verde

Paul Klee






domingo, 19 de março de 2017

"Lógica das aparências"

Tes.
uma bola de feno
rodopiando
carregada de chumbo
seguindo descarrilhada

... era a cabeça de Pancho relampejando
agora sem o seu sombreiro
e a força do Siete Leguas

Ant.....
um som pesado
manilhado
no terreiro um besouro rolava a cabeça de Maria Antonieta
prum molde
redonda e pomposa
serviria pra porta de um buraco

Sínt...
trituradas na moela
da intrusa gravidade
as duas ruínas cada qual
ensandecidas
giraram
na tentiva
de agarra-se ao topor
do advento equatorial

Kandinsky

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Miragens de Salomé





















Aquele que vai
vendendo as presas
segurando uma criança
e levando na sacola um chumaço de couve 
é João Batista

Caminhando {gente só curiosa}
...
hesita e para
em seu caminho um cipreste lascado e sua resina açucarada 
ali 
lutam abelhas e formigas contra o pegajoso
perdem patas antenas asas e fundem ao balanço do galho

diante desse acaso
Batista pensa na palavra "texugo", pela sonoridade
num bagaço de cana, por suas fibras
e num documentário _ é preciso fazer algo!

assim
dentro da cabeça flutuante de João
um cano cromado aponta
ainda limpo de pólvora
=
dispara
--- -- -  -   -     -         -           -    o
Atravessa seu olho esquerdo de dentro pra fora..............................
O atirador, antigo contrabandista de marfim 
foge, saindo pela abertura do ouvido.

Nota do autor:
Toda projeção de João batista de Traste Forte, da tua lamúria que encharca, dos musgos que brotam, de teu corpo firme de pedra e síncope, quebra-se na espinha de um peixe.

pic. J.B.