sábado, 29 de maio de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Conto curto


Tem-se, em observação, uma rua quase deserta senão por um casaco marrom e par de jeans que navega por ela. Mente-se, seguindo o rapaz surge também, de pelugem marrom quase descolorida, quatro patas, três compassadas e uma manca.A distância entre os dois diminuía à proporção da desconfiança e, enquanto o homem diluía suas angústias em solvente natural que é o relento de cidade, o cão parecia querer apenas outro ser que lhe acompanhasse por alguns instantes. Talvez fosse fome e frio, por parte do animal, e embriaguez e vazio, por parte do homem. A verdade é que o último não podia sentir-se aliviado. Não que se arrependesse, mas recebia a áspera resposta do nada. Pois bem, era jovem e imortal, haviam os vinhos, o sexo e as melodias, enquanto sua alma era ampla suficiente para sobressair aos erros. O chiado dos sapatos furados compunha melancólica harmonia pincelada pelo gelado silvo do vento e este tema guiava a então formada amizade por algumas ruelas de Santa Cruz. Mesmo que efêmera, a parceria era de cumplicidade suficiente para abrandar a solidão das calçadas sujas às três da madrugada. Com o cheiro de uma mulher no pensamento, o de outra no braço e o do cachorro ao lado, ele seguia sem pressa na companhia do miserável camarada. Há algo de intrigante nos aromas. Não tão direto quanto uma imagem nem tão temporizados como uma música, o olfato pode ofertar as mais amplas e completas sensações. Passam-se uns vinte minutos e exatamente três quadras, o necessário para dispersar a amargura e para que as pernas já reclamassem o cansaço. Em despedida, o comparsa se aproximou, cheirou e lambeu-lhe a mão. Há meia hora atrás, era a umidade de boca feminina que lhe tocava a pele. Trocou olhos azuis, lascivos e maqueados pelo olhar faminto e pidão de um vira-latas. Nunca a idéia de que 'o tempo passa' lhe parecera tão gratificante.

Miguel Chinaski

domingo, 23 de maio de 2010
















No pálido instante em que nada flui,
O fruto doce e libidinoso insinua-se
Ao alcance da mão – espantoso voyeur –
Prometendo imediato deleite ao mais suave toque.
Manso e arredio, até o espírito se embala.


Mas, ao contato com a boca,
Torna-se amargo.


Sejamos bem-vindos à cotidiana expiação,
Privilégio dos homens.
Tudo se torna espectro do que nunca será.


Norambuena.






















Por mais que se esquivasse dos pingos grossos que caíam das beiradas de um ou outro telhado, seu cigarro já estava quase apagado, seus livros agora não estavam valendo mais de 10 reais, e não eram suficientes para comprar uma garrafa de pinga e cigarros por uma semana. Alguém poderia ajudar, mas seu orgulho meia-pataca azedava com qualquer telefonema da mãe oferecendo dinheiro. Aceitava, mas azedava.O emprego no banco bastava para pagar suas dívidas e bancar uns caprichos que tinha. Dizia a si mesmo “Sem caprichos não tem porque trabalhar nessa cidade de merda”. Na verdade há muito já não tinha capricho algum. A pinga e o cigarro eram corriqueiros e agora dos mais vagabundos, mas como era de praxe os vícios sempre eram considerados caprichos, dos quais nunca abria mão, exatamente por chamá-los de caprichos.

                                         Frederico Gomes

sábado, 22 de maio de 2010















Deixa a chuva chover


O mato crescer


e o barco correr nas águas do rio.


                         Antonio Orlando.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Jazz com Morfina
















Entulhos e um espectro de terno
latas enferrujadas
a leveza dos ratos
cama de cigarros

Do outro lado
um avelhantado em salseiro
   morrendo

Diálogos tão pouco existentes
 talvez

Os jazzistas saborearam a heroína no passado
com inversos negros de New York...

Nos cafés
   bundas com celulites desfilaram
com porteiros

E num indeterminado momento
          a França foi domingo
    e as praias o empanado dos seios

Fragmentos Caseiros














Van Gogh

Surto inopinado
antes do alvor.
Gagueira insiste
não há palavras
Ouve-se vozes
de ratos.
O Queijo podre
lança o golpe.


A formiga
na fila eterna
espera o grão
a migalha
a sujeira
e decompõe-se
junto à matéria
orgânica.


No teto
os cupins
devoram
a roupa
a madeira
a carne
os sentidos.
E Proliferam-se.


Também a água
contamina-se
infiltra-se
na parede
no teto
na veia
e faz mofar
o que era belo


Os moveis
no pó.
A roupa
desgastada.
O sapato sujo
e velho
no chão.
O abandono.


A casa
um porão
fede urina
carniça
perde o viço.
Perdem-se
também
os amores.


           Dani R.F.