o telhado industrial recorta a vista em pirâmides
são lembranças da tv analógica
do fundo de tarde encorpado
das rajadas no Golfo Pérsico
"chuviscos", "fantasmas" (sombras) borrões
interferências no sinal
o ruído rosa
meu pai a dormir no sofá
mais de 3 décadas depois dos anos 90 ...
hoje assisto o pinicar verde e gordurante de lotes vazios
o ágil felinoide
está ali borbulhante
vendo a chuva rodear mais um dia sem chegar no quarteirão
no bairro santa cruz também tem erotismo
os terrenos escondem contêineres
grandes dobradiças amarelas rangem o bom aperto o desgaste do ferro rebitado
aqui o vento tem língua pesada rugosa de garrotes aerodinâmicos
expondo barrancos vermelhos em trincas profundas
entorna o cheiro de ferrugem, o suor de imigrantes escondidos
estamos no alto
onde nível do mar é mera abstração
as camas são arejadas
os lençóis são quase que transparentes no varal
e todo corpo na horizontal fica iluminado