sábado, 7 de março de 2026

Santa Cruz

o telhado industrial recorta a vista em pirâmides 

são lembranças da tv analógica

do fundo de tarde encorpado

das rajadas no Golfo Pérsico

"chuviscos", "fantasmas" (sombras)  borrões

interferências no sinal 

o ruído rosa 

meu pai a dormir no sofá


mais de 3 décadas depois dos anos 90   ...

hoje assisto o pinicar verde e gordurante de lotes vazios

o ágil felinoide 

está ali borbulhante

 vendo a chuva rodear mais um dia sem chegar no quarteirão 


no bairro santa cruz também tem erotismo

os terrenos escondem contêineres

grandes dobradiças amarelas rangem o bom aperto o desgaste do ferro rebitado

aqui o vento tem língua pesada rugosa de garrotes aerodinâmicos 

 expondo barrancos vermelhos em trincas profundas

entorna o cheiro de ferrugem, o suor de imigrantes escondidos


estamos no alto 

onde nível do mar é mera abstração

as camas  são arejadas 

os lençóis são quase que transparentes no varal

e todo corpo na horizontal fica iluminado